Você já notou
uma coisa
em comum entre algumas figuras ligadas ao Yoga? Longevidade. Exemplos como Indra Devi, 103 anos;
Tao Porchon-Lynch, 101 anos (viva e continua ensinando Yoga),
B.K.S Iyengar, 96 anos; Hermógenes, 94 anos; Pattabhi Jois, 93 anos e
Shri Yogendra, 92 anos. Sem mencionar outros personagens legendários (e centenários) que fortalecem essa perspectiva longeva do Yoga.
A Organização Mundial de Saúde (OMS) lançou uma campanha mundial cujo o tema é: "2020-2030: A década do envelhecimento saudável". É uma oportunidade de articular a sociedade civil, governos, agências internacionais, profissionais (aqui eu incluiria nós da área do Yoga), universidades, mídia e setor privado para que nos próximos 10 anos possam ser implementadas ações colaborativa
s
em prol de um envelhecimento mais saudável.
Para alguns, isso pode estar muito distante, para outros, a linha tênue que separa juventude e a chamada velhice pode estar aqui e agora. Mas o fato é que todos nós envelhecemos desde o útero de nossas mães. E a cada dia que vivemos, vamos negociando com o senhor Cronos a nossa contabilidade existencial.
Da mitologia à ciência, parece que só essa última tem as ferramentas de prolongar a duração da vida da espécie humana. Na terra do Tio Sam (EUA), por exemplo, o debate em enquadrar o envelhecimento como "doença" é acirrado, pois
assim
agências de financiamento poderiam direcionar recursos e alavancar esse campo de pesquisa.
Em 2019
, a OMS classificou
o envelhecimento
pela primeira vez
como "medical condition" - condição médica - um termo amplo que inclui doença, lesões e distúrbios. Ou seja, o envelhecimento não está mais na categoria de um ciclo "natural", e a engenharia genética trabalha a todo vapor para reverter os efeitos do tempo em nosso corpo.
Uma das áreas de pesquisa de ponta nas ciências da saúde é a do envelhecimento (aging). São suplementos alimentares, medicamentos como o metformina ou NMN ( mononucleotídeo de nicotinamida), exercícios, jejuns e a lista continua. Sem contar as terapias genéticas como as intervenções comercializadas pela empresa BioVida em que a CEO, Elizabeth Parrish, foi (e ainda é) a protagonista principal de um ousado e arriscado tratamento para aumentar o tamanho dos seus telômeros, e consequentemente, rejuvenescimento.
E quando um cientista renomado declara abertamente em suas entrevistas que pratica Yoga? É um sinal
indi
cativo que as práticas
podem
aciona
r
possíveis impactos nas idades biológicas e cronológicas.
O seu nome é David Sinclair. Professor no departamento de genética da Universidade de Harvard, é autor do livro "Lifespan: why we age - and why we don't have to" (2019). Foi considerado pela revista Times uma das 100 personalidades mais influentes do mundo na atualidade. Para Sinclair, o desafio
d
a engenharia genética é fazer uma especie de "reset" ou redefinir para menos o processo de envelhecimento de forma mais definitiva do que paliativa, expandindo a longevidade
para 120 anos ou mais com qualidade de vida
.
Yoga & envelhecimento
A enzima telomerase influencia o comprimento dos telômeros. Esse indicador está
ligado
à saúde e mortalidade. A enzima facilita a adição da sequência do DNA sobre os telômeros durante a divisão celular. A sua alta atividade indica um ótimo padrão do sistema imunológico. Dieta, exercícios e condições psicológicas alteram o tamanho dos telômeros
.
N
o
s
caso
s
de depressão
e stress
geram-se
encurta
mentos pela hipoatividade telomérica
.
No estudo de revisão meta-analítica de Schutte e Malouff (2014), os resultados de 190 indivíduos foram verificados. A conclusão sugere que variantes de meditação provocam um aumento da atividade nos telômeros. Umas das pesquisas analisadas identificou que mesmo após 5 anos da intervenção, 10 participantes continuavam apresentando um alongamento telomérico. Também foi discutido que a diminuição da liberação do cortisol - redução do stress crônico e/ou depressão, aumentaram a atividade da telomerase. Essa seria uma das associações mais diretas entre as práticas contemplativas como
o
Yoga e os telômeros.
Isso vai ao encontro da pesquisa de Rivera-Tavarez (2017)
. O
autor cita que as práticas meditativas podem ser especialmente úteis em adultos idosos por várias razões
, pois e
nvolvem atividades de baixo impacto que podem ser toleradas por todos, inclusive idosos com limitações físicas, sem eventos adversos. Melhora o humor e a capacidade de lidar com o estresse crônico, proporciona alívio da dor crônica e pode reduzir o uso
de vários f
ármaco
s
:
"
Uma única sessão de 20 minutos de prática de respiração yogue pode reduzir os níveis dos principais biomarcadores pró-inflamatórios na saliva.
"
Brown e Gerbarg (2009) no paper "Yoga, respiração, meditação e longevidade", afirmam que há evidências apontando que o exercício respiratório Sudarshan Kriya Yoga atua via mecanismos fundamentais para o aumento da longevidade. Os cientistas são categóricos ao dizer que
a
nossa capacidade de lidar com o estresse tem um impacto
direto
sobre como envelhecemos.
E por último, a nossa coluna vertebral é a primeira parte do corpo que envelhece. Assim, é bastante plausível equacionarmos as posturas do Yoga (asanas) com os seus efeitos, pois são geometrias corporais peculiares. Tudo indica que a tradição do Yoga já sabia sobre a importância em posicionar e flexibilizar a coluna apropriadamente
para a nossa saúde.
A questão do envelhecimento nos traz à tona não só os aspectos neurofisiológicos ou psicológicos, mas também a carga cultural e o contexto social. O sistema védico, por exemplo, classifica a senioridade como uma das quatro fases da vida "ashrama dharma", sendo ela chamada de "vanaprastha", cujo principal papel é o de conselheiro/a ancião/anciã (Muniapan e Satpathy, 2013). Sem romantizar, o mundo dito "oriental" tem uma relação diferenciada com tempo, de maneira mais cíclica e acolhe com mais serenidade essa fase da vida.
Enquanto eu escrevia esse texto, me vieram duas frases de músicas: "who wants to live forever" do Queen e "a gente é feito pra acabar" do Marcelo Jeneci. Entre uma ou outra, vou parafrasear o Sadhguru: "o maior problema do ser humano é que ele esquece que vai morrer um dia e vive como se fosse eterno".
Namaste.
Referências:
-
Schutte, N.; Mallouff, J. A meta-analytic review of the effects of mindfulness meditation on telomerase activity. Psychoneuroendocrinology, 42. P. 45 - 48, 2014
- Brown, R. ; Gerbargb, P. Yoga Breathing, Meditation, and Longevity. Longevity, Regeneration, and Optimal Health: Ann. N.Y. Acad. Sci. 1172: 54?62, 2009
- Muniapan, B.; Satpathy, B. The 'dharma' and 'karma' of CRS fom Bhagavad-Gita. Journal of Human Values, 2013.
Namaste.