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Como falar de começos se tudo já existia antes do principio? Como inserir letras maiúsculas se tudo começou em reticências? A menina, na mais escura das noites, no nascer desse sol ? porque por outros sóis ela já tinha passado- era só perguntas. Indecisa entre olhar um beija-flor ou chupar um picolé, dessas dúvidas cruéis que  a inocência suscita, a Menina se espanta com a Luz que a olha.

 

Encantada, mas sem medo, com a naturalidade dos que acham completamente normal um homem montado em uma criatura meio-homem, meio-águia, ela sorri e pergunta:

- Como ele aguenta o seu peso? Ele não cai com você, moço?

 

O homem montado no ser-águia traz um disco nas mãos, uma concha na outra e uma flor de lótus por sobre os cabelos. Seu sorriso é acolhimento e desafio.

 

E é uma charada que ela recebe:

- Ele me aguenta porque assim é. Como vai ser você, menina-mulher. Põe o pé na frente do pé e o caminho se fará caminho.

 

E assim ela o fez. A Menina era de coragens e seguiu o caminho por longos dias, sozinha, só ela é o mundo. Depois de andar por toda uma década, a Menina já era Moça. E a Moça foi parada por um mar terrível, sem passagem. E o mar se chamava medo. E O Medo a tomava toda. Mas ela lembrou do Homem do Dia. E pensou que era porque era. E um peixe lindo, de escamas de ouro e um chifre, no qual um barquinho estava amarrado, a levou para a outra margem. E ela cresceu mais.

 

Mas o caminho se faz caminhando e muitos dias se passaram. A Moça se deparou com um monte alto, que jorrava leite bom. Ela quis beber, mas demônios terríveis a arranhavam com suas unhas de metal. E os Demônios se chamavam Dúvida. Mas ela lembrou que era porque era e uma Tartaruga linda apareceu, a colocou sobre o casco, empurrou os demônios montanha abaixo e a Moça bebeu do leite da Imortalidade. E ela cresceu mais.

 

A estrada seguia e o sol de dia e as estrelas à noite pulsavam dentro e fora dela. Mas a estrada não é de placidez. E mais um desafio apareceu. Novas águas inundaram a Terra e as águas eram a Dor. A Moça quase se afogou na Dor, mas com o restinho de ar dos pulmões, debaixo d?água, ela gritou ?Eu sou porque sou?. E sempre chega ajuda para os que são. Um javali garboso surgiu e derrubou um gigante que prendia a Terra. A Dor passou e ela, a Moça, cresceu mais.

 

Ela já estava cansada de andar sem saber rumo. E a floresta era linda. A Moça pensou que talvez fosse hora de deixar de ser e passar a estar. Foi então que raízes terríveis prenderam seus pés e braços e, atacando seu pescoço, começaram a enforcá-la. A Floresta era o Vale do Apego. No restinho de suas forças, a Moça lembrou que era porque era e chamou para perto de si o Homem-Leão, que rasgou as raízes com seus dentes e garras e a libertou. Machucada, mas inteira, ela voltou a caminhar. E cresceu mais.

 

No desenrolar do caminho, a Moça se deparou com um anão mágico. Ele apontava para três estradas e disse a ela:

- Domine a rota certa e grande será. Entregue-se ao caminho errado e guerra encontrará.

 

Que escolher? Qual das três pontas era a dela? E ela pensou. Pensou. E sentiu que era. Ela era porque era. Os três atalhos eram dela. Então, a Moça sentou-se no chão de pernas cruzadas, ergueu os braços, juntou os polegares aos indicadores e se transformou em três. E cada-ela cruzou uma picada. Um caminho era de pedra. O outro era de água. O terceiro de fumaça. As três-elas passaram e, quando as rotas viraram uma, ela voltou a ser uma também. E ficou maior ainda.

 

Caminha que caminha, a Moça já era bem grande.  E viu coisas tristes e coisas bonitas. Viu amores e viu ódios. Viu a vida e a morte. E, para cada coisa boa, viu uma ruim. E questionou se caminhar valia a pena.

 

Já andava por muitos dias, tinha fome e não tinha pão. Deu de cara com um sacerdote e perguntou-lhe se ela tinha de comer para dar. O sacerdote disse que pão não tinha, que tinha matado um rei, o qual tinha roubado seu pai. E que ela teria que matar 21 gerações de fome para se alimentar. E disse mais o sacerdote:

- Pão não tenho. Mas tenho pedras e a ti as dou. Com amor.

 

Ela abraçou o sacerdote e recebeu, agradecida, o saquinho de pedras. E cresceu. Cresceu tanto, que já não era a Moça. Agora ela era a Mulher. E a Mulher abriu o saco de pedras e viu que elas eram banquete farto. E a Mulher estava pronta para o que viria.

 

E o que veio veio lindo. Um jovem, de pele azulada e beleza infinitas, abre os braços para a Mulher e ela se lança no Nele e Ele é o Universo todo. Sorrindo, com todas as estrelas na boca, ele diz a ela:

- O caminho se fez. A Menina é Mulher. E ela pode o que ela quer. O que ela quer?

 

A mulher, então, une as palmas das mãos na altura do coração, fecha os olhos, canta a canção que é o som mais poderoso do mundo e diz:

- Que todos sejam felizes, que todos tenham saúde e que todos sejam felizes.

E o mundo inteiro foi feliz. Porque ela era.

 

(Para Claudia. No caminho. E com os meus maiores agradecimentos.)