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Quando se fala em "Yoga" uma das primeiras imagens que nos vem à mente é relacionada a uma postura corporal, seja ela sentada pacificamente ou em uma esbelta posição de equilíbrio.  

 


 

Acadêmicos do campo Yoga Studies  vêm elaborando quadros conceituais, rastreamentos históricos de linhagens e tipos, mas principalmente, analisando as dinâmicas culturais e transnacionais em que o Yoga se tornou um fenômeno global. E foi nesse campo de estudo, que surgiu o conceito de Modern Yoga (Yoga Moderno). Uma de suas autoras, Elizabeth De Michelis, delineia a data de 1896 com o livro de Swami Vivekananda "Raja Yoga" para a inauguração dessa nova era. 

 


 

Por exemplo, linhas populares como o Asthanga e Iyengar têm suas "certidões de nascimento": nascidas em Mysore nos aposentos do Palácio de Mysore, cuja "paternidade" pode ser atribuída a Krishnamacharya. Através de seus alunos, B.K.S Iyengar e Pathabi Jois, a "fecundação" de novos estilos de Yoga nasciam na primeira metade do século XX se espalhando mundo afora. 

 

 

LIVROS QUE ENSINAM ASANAS: NOVOS GURUS 

 

Mas muitas tradições do Yoga elaboraram as suas metodologias utilizando o corpo  voltadas ao aprimoramento humano, corpo  aqui entendido não somente como uma entidade física, mas como um complexo relacional entre matéria, bioenergia e consciência. Na tradição do Yoga, o ser humano tem corpos, no plural, cada um com a sua especificidade (ver figura abaixo).

My Image O Hatha-Yoga, amplamente conhecido nos dias de hoje, teve o seu apogeu literário na chamada era medieval do Yoga. Foi nesse período que textos importantes como Gheranda Samhita e Hatha Yoga Pradipika foram elaborados. Mas essas escrituras não tinham um importante recurso estético e didático que só foi surgir a partir do século XIX, se consolidando no século XX: as ilustrações posturais. Esse dispositivo narrativo imagético  mudou profundamente a maneira de se conhecer e praticar o Yoga baseados nos asanas Vale ressaltar que as descrições das técnicas corporais contidas nos textos medievais do Hatha, não tinham o objetivo de substituir o papel dos/as gurus na transmissão do Yoga. 

 

 

 

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Desta forma, as posturas ilustradas (desenhos ou fotografias) nas obras literárias ganharam uma voz, ou melhor dizendo, um comando à ação: veja-e-faça-você-mesmo. Personagens históricos, como Sri Yogendra do The Yoga Institute,  ajudaram a impulsionar a popularização dos asanas nas primeiras décadas do século XX. 

 

 

CIÊNCIA & YOGA

 

E a ciência nesse caldeirão yóguico? A ciência foi uma parceira importantíssima para enunciar os efeitos das práticas, algo inédito até então por uma série de fatores, incluindo o seu próprio desenvolvimento e a consolidação de novas disciplinas, principalmente na área da saúde. Com isso, contemporaneamente a Sri Yogendra, centros de pesquisas experimentais como o Kaivalyadhama começaram a se estabelecer, incluindo a médica cardiologista francesa Thérèse Brosse, que voltou os seus olhos (e equipamentos) às habilidades corporais de Yogis avançados. 

 

Desde então, décadas se passaram, e as práticas de Yoga foram pouco a pouco sendo colocadas sob os escrutínios da ciência. Hoje, há uma gama bem variada de temas em todo o mundo, como uma pesquisa no Irã sobre os efeitos das técnicas do Hatha em crianças autistas. Outro ponto a se mencionar, não podemos ignorar estudos sobre os "efeitos-colaterais" (ex. lesões, etc.) de práticas mal orientadas e executadas, pois quanto menos romantizarmos o Yoga, melhor o nosso discernimento. E caso pratique os asanas, fique atento/a e tenha cuidados redobrados aos sinais que o seu corpo emite. Dor nunca é resposta de avanço, e ajustes forçados ou inapropriados constituem-se como abusos.

 

 

ASANAS EM AÇÃO

 

Sabemos a partir da Física que toda ação gera uma reação. Toda materialidade que os nossos sentidos conhecem, de acordo com a Mecânica Quântica, é repleta de "vazios" (99,9%) e tudo vibra frequências. O que está em jogo em conceber a "realidade" é a nossa capacidade de percepção. O Yoga, de maneira geral,  proporciona um treinamento sobre as percepções, tanto que Sadhguru (Jggi Vasudev) o   chama de "Engenharia Interior". Quando executamos os asanas estamos replicando determinados arquétipos e reverberamos as sua carga informacional em nós mesmos. Assim, geramos ressonâncias coerentes que integram o paradigma de separação entre mente e corpo, aniquilando a experiência de temporalidade cronológica. Quem nunca sentiu durante um asana  que a permanência parecia segundos quando, na verdade, se passaram minutos a fio? 

 

Há uma profunda alquimia nascida entre os movimentos, as permanências com as inspirações, retenções e expirações. Esse tipo de treinamento peculiar dos asanas, como uma plataforma de intervenções sobre o corpo e a mente, promovem uma série de impactos sobre os sistemas nervoso, endócrino, circulatório e respiratório, além das articulações, músculos e ossos, especialmente a coluna. O massageamento interno em órgãos, vísceras e glândulas também é um dos desdobramentos das práticas. Existem asanas favoráveis para caso de diabetes, cólica menstrual, depressão, etc. Um dos desafios das pesquisas científicas é obter uma modulação funcional das posturas do Yoga para cada situação, ou seja, escolher e combinar quais asanas, além de acrescentar o tempo apropriado. 

 

 

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Alguns salientam que o Yoga é uma arte, e como qualquer outra arte, a maestria vem da prática, na sua execução cíclíca, pois não é repetição: nenhuma prática é igual a outra. Têm maneiras de entrar, permanecer e sair de uma postura, e para aprender esse novo alfabeto corporal, leva-se um pouco de tempo. Aqui, cabe uma ressalva: a prática dos asanas não se deve  buscar uma suposta perfeição.

 

É importante se atentar que esse tipo de perfeccionismo estéril vem de uma complexa rede de padrões estéticos culturais, formações deficitárias (em Yoga), retroalimentada por interfaces tecnológicas (ex. mídias sociais) que formam verdadeiras ditaduras de asanas.  Não importa se a pessoa é super flexível, se consegue colocar a cabeça nos joelhos, se as mãos alcançam o chão quando com o corpo dobrado à frente, se fica de ponta cabeça, se faz paradas de mão, se tem a roupa de ginástica da moda, se o tapete (yoga mat) é anti-derrapante, se tem blocos ou faixas (props), se a almofada é do Nepal ou se o japa-mala é de cristal, nada disso importa para a prática de Yoga via asanas.

 


 

Curiosamente, nos tempos atuais, as mesmas ferramentas de divulgação e popularização do Yoga através das mídias sociais podem levar ao aspecto mais sutil das armadilhas da natureza humana: vaidade. Há milhares de anos o Yoga oferece vários "antídotos" para evitar ou atenuar que o/a praticante escorregue no terreno do ego. Tal como a areia movediça parece ser um solo firme de se pisar, as dinâmicas contemporâneas de interação social-digital podem facilmente aprisionar os asanas como meras vitrines do corpo. 

 

Durante mais de dezessete anos praticando Hatha, eu sigo o que aprendi com meus melhores professores: serenidade, foco, respeito às limitações, espontaneidade, abertura às possibilidades, bom senso e simplicidade. De fato, não são regras ou cálculos geométricos, mas sempre me orientaram de forma muito precisa, segura e eficaz.

 

É recomendável a supervisão de um profissional qualificado para as práticas de asanas

 

 

Namaste.

 

Sobre a autora: Claudia Poletto é Doutora em História das Ciências, das Técnicas e Epistemologia (UFRJ). Professora de (Hatha) Yoga desde 2005. Pesquisadora Independente. Fundadora da plataforma YOGA e CIÊNCIA . Mais bio, clique aqui.

 

 

PS1:  Antônio Blay, em sua obra "Hatha Yoga: fundamentos e técnicas" conceitua Hatha Yoga como:   "A palavra Hatha é formada de duas palavras sânscritas Ha , que significa Sol, e Tha, que significa Lua. Por isto, HATHA é conjunção de ambos os astros (...) De um ponto de vista experimental, podemos tentar definir o Hatha-Yoga, dizendo ser ela: A técnica de integração ou unificação natural do homem mediante: a progressiva purificação do corpo; o desenvolvimento de suas potencialidades; a perfeição de seu funcionamento; a crescente integração da mente com ele." (2004, p. 31)

 

PS2: Annanda Mayee Ma no livro "Mother Reveals Herself" de Jyotish Chandra Roy (2010), afirma que há mais de 84 milhões de asanas

 

Referências:


 

 

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Fonte das fotos:  Unsplash