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Medos reais ou imaginários

 

Só a palavra medo para alguns já causa medo. Sua etimologia vem do latim ?metus? (ter medo, recear). Medo de escuro. Medo de perder. Medo de ganhar. Medo de brilhar. Medo de altura. Medo de barata (esse eu tenho!). Medo de mudar. Medo de viajar de avião. Medo de assalto. Medo de morrer. Medo de multidão. Medo de cachorro. Medo de aranha. Medo do mar. Medo de falar em público. Medo de lugares fechados. Medo de lugares abertos. Medo de abandono. Medo de cair. Medo de ficar doente. A lista é quase interminável, mas no fundo a raiz do medo talvez seja uma só: a ameaça (real ou imaginária) daquilo que nos faz perder um suposto controle.

 

O medo bloqueia a espontaneidade.

 

Seja qual for o medo, ele trava o fluxo da vida. Se alimenta de porções generosas ou frugais, dependendo do ?tamanho? da sua fome, mas invariavelmente, o medo bloqueia a espontaneidade. Ao cimentar a expressão mais autêntica do ser humano - a espontaneidade - o medo engessa singularidades solidificando padrões existenciais como se fossem protocolos que comandam o viver. Não há espaço para o novo, não há lugar para a transformação. E assim, petrificado, se torna um árduo peso à liberdade; impossível de se alçar vôos mais altos e autônomos.

 

 

Saídas e caminhos

 

Cada um com seus medos, cada um com seus processos de libertação. Mas há também àqueles que estão tão apegados aos seus medos, que os confundem com suas próprias biografias. Como então é possível ?desinstalar ?o medo? Primeiramente, é necessário após a sua identificação, a aceitação de procurar um caminho de suporte e auxílio. Uma jornada com muitas estradas a escolher: psicoterapia, terapias holísticas diversas, acupuntura, intervenção médica psiquiátrica quando necessário, ayurveda, homeopatia, e muitos outros, incluindo o Yoga.

 

As técnicas corporais do Yoga como os asanas (posturas) ensinam a conhecer esse território fantástico de possibilidades e limitações que é o corpo.

 

Falando especificamente sobre o Yoga, se bem conduzido, permite um profundo contato com o corpo-mente-emoções. As técnicas corporais do Yoga como os asanas (posturas) ensinam a conhecer esse território fantástico de possibilidades e limitações que é o corpo. Aprendemos com as práticas a dialogar, escutar, negociar, aceitar, e finalmente, a transmutar nós mesmos. Reaprendemos a respirar, que faz toda a diferença em termos de reprogramação de estados mentais e emocionais mais saudáveis. Nos tornamos mais lúcidos(as) em relação aos nossos pensamentos, desnudamos aquilo que é real do imaginado. Soltamos tensões e rigidez por meio do relaxamento consciente (nidra); liberamos verdadeiras ?calotas glaciais? que nos congelam pelos medos. É um processo que o Yoga nos faz sentir mais confortáveis em nossas próprias peles e mais leves interiormente.

 

Yoga nas ciências sobre o medo

 

E como as pesquisas científicas estão diagnosticando os efeitos das práticas de Yoga relacionadas ao medo? Num estudo realizado pelo Jahandidegan Center na cidade de Shiraz no Irã (a propósito, no Irã também se produz ciência de excelência com pessoas sérias e competentes), liderado por Narjes Nick e Peyman Petramfar et al. (2016), concluiu mudanças significativas em pacientes entre 60 e 74, os quais possuíam medo de queda. Essas alterações - após 8 semanas de intervenção com Hatha-Yoga - incluem uma melhora no equilíbrio e redução do medo de cair em pessoas idosas. Sabe-se que uma das principais causas de debilitação (hospitalização e até morte) em idades avançadas é proveniente de quedas. Os pesquisadores sugerem que o Yoga pode ser inserido em programas de prevenção de riscos de quedas para idosos, pois fortalece autoconfiança e estimula mobilidades mais seguras (flexibilidade e força).

 

após 8 semanas de intervenção com Hatha-Yoga - incluem uma melhora no equilíbrio e redução do medo de cair em pessoas idosas.

 

Quando a ansiedade se transforma em um transtorno, um dos seus sintomas é o medo. Difuso ou específico, muitas pessoas ficam paralisadas pelos picos do nível de ansiedade relacionados ao medo. Há centenas e centenas de estudos científicos que apontam favoravelmente o Yoga como uma ferramenta positiva de intervenção no gerenciamento e atenuação da ansiedade.

 

Queda de 24% do nível de cortisol entre os participantes. Os voluntários praticaram Yoga durante 6 semanas 2 vezes por semana.

 

Uma pesquisa conduzida no Brasil pela Unicamp, publicada no ?The Journal of Alternative and Complementary Medicine?, coordenada por Janir Batista et al. (2015) dos departamentos de biologia e medicina, relata uma queda de 24% do nível de cortisol entre os participantes. Os voluntários praticaram Yoga durante 6 semanas 2 vezes por semana. Análise clínica da saliva para medir o nível de cortisol e questionário auto-avaliativo foram utilizados como métodos de captura de resultados. No quesito ?medo e ansiedade? do questionário, houve uma diminuição do indicador de 0.54 para 0.30, ou seja, quase 50% de redução. O estudo brasileiro concluiu que as práticas de Yoga, tanto num curto período ou longo, atenuam clinicamente e subjetivamente os índices de cortisol, colaborando significamente na resposta aos sintomas do stress (medo, ansiedade, fadiga, irritabilidade, etc.).

 

Portanto, o objetivo da práxis do Yoga é a transcendência suprema de todas aflições (kleshas) - diz Jabuczac (2004) baseada no texto de Patanjali.

 

Já numa categoria mais filosófica sobre o medo, o artigo publicado no Journal of Human Values intitulado: ?Para nos conhecermos: Perspectiva do Yoga Clássico? (Towards Knowing Ourselves: Classical Yoga Perspective) da professora polonesa de filosofia Marzenna Jakubczak, Ph.D. O mesmo discorre sobre o texto clássico ?Yoga Sutras? de Patanjali. Jabuczac (2004) salienta que o medo da morte (abhinivesha), conforme Patanjali, é um dos frutos da ignorância (avidya), a aflição primária do ser humano. Mas para poder erradicar essas forças compulsivas que geram aflições (kleshas), é imperativo que a identidade egocêntrica possa ser enfraquecida, portanto, o objetivo da práxis do Yoga é a transcendência suprema de todas aflições (kleshas) - diz Jabuczac (2004) baseada no texto de Patanjali.

 

Seja qual for o medo, existencial ou de baratas, o Yoga pode ser um dos caminhos viáveis e funcionais na sua desinstalação completa, parcial ou gradual. Com uma vida mais livre e desobstruída, é possível protagonizar com leveza a própria história. Que haja Yoga nas horas de medo. Que haja Yoga nos momentos de pânico, pois um belo manancial de harmonia reside bem dentro de nós, e acessá-lo, eis a questão.

 

Namaste!

 

 

Referências Bibliográficas: 

- JAKUBCZAK, Marzenna. Towards Knowing Ourselves: Classical Yoga Perspective. JOURNAL OF HUMAN VALUES 10:2 (2004). Sage Publications New Delhi/Thousand Oaks/London.

- BATISTA, Janir et al. Acute and Chronic Effects of Tantric Yoga Practice on Distress Index. THE JOURNAL OF ALTERNATIVE AND COMPLEMENTARY MEDICINE Volume 00, Number 0, pp. 1?5 (2015)

- NICK, Narjes et al. The effect of Yoga on balance and fear of falling in older adults. AMERICAN ACADEMY OF PHYSICAL MEDICINE AND REHABILITATION, pp 145 - 151 (2016)