Certa vez ouvi de um dos meus Mestres algo assim: "o importante não é ser feliz o tempo todo, mas estar bem, viver bem". Aquilo ficou ecoando em minha vasta e invisível "terra de pensamentos". O ponto de partida ele já havia me apontado, mas o caminho, ah! esse eu teria que fazer para compreender a frase dele.
Quando estamos imersos em alguma questão, é incrível como "aparecem" respostas ou sinais de mais reflexões. Recentemente, assisti uma entrevista de um filósofo, o qual falava sobre a angústia contemporânea da busca inexorável da felicidade a todo custo (as próprias selfies já mostram a ponta desse iceberg). Outro dia fui à uma palestra, onde um psicólogo reverenciou profundamente todas as pessoas que sofriam de depressão, pois ele via nelas um alto grau de sensibilidade e de potencialidade humana.
É provável que a depressão traga consigo a condição mais humana de todas, o sofrimento, que a literatura do Yoga chama de dukkha. ?Mas só quem esteve ou está acometido(a) - ou ainda - conviveu e convive com entes e amigos nessa situação conhece bem de perto a fragilidade humana.
Há uma assustadora estimativa que 350 milhões de pessoas ao redor do globo terrestre sofram de depressão. Não foi à toa que no ano de 2017 foi eleito o tema da Organização Mundial da Saúde (OMS). Mais triste ainda dentro dessa estimativa numérica, são os suicídios acarretados pela depressão, em torno de 800 mil/ano. Isso sem levarmos em consideração que essas 350 milhões pessoas não vivem só, têm família e amigos, então, multipliquemos esse número, e chegaremos num montante mínimo de 1 bilhão de pessoas que sofrem diretamente ou indiretamente pela depressão.
A depressão não só incapacita profissionalmente, ela também mutila relações, ceifa talentos, interrompe sonhos e aprisiona sorrisos. É necessário um olhar atento, e atitudes tanto efetivas quanto afetivas para lidar com essa questão, seja em si ou com os outros. O mais importante acima de tudo é não ignorar, abafar ou desviar desse assunto: depressão. Os sintomas podem ser difusos ou pontuais, sendo necessário a avaliação e acompanhamento profissional.
Sempre é bom lembrar que ninguém está imune. Não há vacina contra depressão. Mas há saída. Há esperança. Há uma rede de possibilidades e acolhimentos, tais como: Psicólogos/as que foram treinados/as durante anos em suas formações e experiências; Centro de Valorização da Vida (CVV) tel. 141; Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), etc.
Nos últimos anos, felizmente, há uma formidável e crescente produção científica que vem investigando os efeitos do Yoga sobre o corpo/mente. Dentro das "descobertas", há vários e vários estudos que apontam a eficácia (resultados) e a eficiência (capacidade de produzir um desempenho) das práticas de Yoga sobre a depressão.
São as pluralidades das técnicas do Yoga que "trabalham" a favor da homeostasia, o equilíbrio.
As posturas corpóreo-mentais (asanas), a reorientação respiratória (pranaymas), o desenvolvimento da atenção (dharana), o relaxamento (nydra) e a meditação (dhyana), esse caleidoscópio yóguico atraiu a atenção da ciência na contemporaneidade, pois era urgente e necessário "desvendar" (traduzir para a linguagem científica) os "mistérios" (efeitos) das práticas.
Num estudo recente baseado na Universidade de São Francisco conduzido por Prathikanti et al. (2017), demonstrou que: "em adultos com depressão leve a moderada, a intervenção de Hatha Yoga durante 8 semanas resultou em reduções estatisticamente e clinicamente significativas na gravidade da depressão".
E mais, concluiu a pesquisa: "As intervenções baseadas no Yoga podem fornecer uma opção de tratamento à depressão mais econômica, amplamente acessível e associada à alta aceitação social" (...) "Se a eficácia antidepressiva do Hatha Yoga pudesse ser validada em escala maior (ensaios clínicos randomizados), isso seria de grande relevância para a saúde pública".
Sim, você leu bem, essa pesquisa afirma que, se houver mais pesquisas relacionadas ao Hatha Yoga e seus impactos sobre a depressão isso poderá influenciar um espectro mais amplo: a saúde pública. O que abre mais espaço à validação de outras medidas terapêuticas menos hegemônicas e invasivas como os fármacos psicotrópicos.
Isso não quer dizer em hipótese alguma que os medicamentos não sejam importantes no tratamento de casos de depressão.
O que deve ser entendido é que o Yoga pode ser um aliado da Medicina e Psicologia no manejo de crises depressivas.
Em outra pesquisa de 2012 pela Universidade da Virgínia, as cientistas Kinser, Goehler e Taylor construíram o tema por meio de uma pergunta: "Como o Yoga pode ajudar a depressão? Uma perspectiva neurobiológica". Nessa revisão de artigos científicos, elas identificaram que as práticas de Yoga podem ser efetivas para diminuir um dos sintomas da depressão, a ansiedade, por influenciar interações e funções nas seguintes estruturas cerebrais:
Só para contextualizar, o lobo frontal (onde estão localizados os Córtex descritos) é responsável pelo desempenho dos pensamentos abstratos e criativos, planejamento de ações, motricidade voluntária, linguagem, respostas afetivas, sociabilidade e atenção seletiva.
As cientistas apontam também as interferências químicas que as práticas de Yoga produzem na fisiologia neurobiológica. Uma das mais significativas é o o aumento da produção do Ácido Gama-Aminobutírico (GABA), um neurotransmissor responsável por efeitos ansiolíticos e antidepressivos.
As cientistas alertam que o/a paciente não ignora a presença da depressão ou ansiedade, mas ele/ela redireciona os seus pensamentos sobre esses mesmos estados através de uma postura interna de não-julgamento, então muda-se a relação do paciente com a depressão. O estudo sintetiza que as técnicas aprendidas do Yoga podem ajudar o/a indivíduo/a modificar a sua percepção dos agentes estressores, alterando suas reações fisiológicas e afetivas frente à exposição do stress e da depressão.
Para mim, as cientistas e meu Mestre de alguma maneira se encontraram em suas considerações.
Situações desagradáveis sempre vão existir.
Frustrações andam lado a lado das conquistas.
Sentimentos como tristeza e alegria fazem parte do nosso vocabulário emocional.
Altos e baixos da vida são como ondas que surfamos diariamente.
E por aí seguem as nossas batalhas existenciais tal qual Bhagavad Gita.
Acredito que o "viver bem" mencionado pelo meu Mestre falou, consiste nessa delicada arte de mudança da percepção e perspectiva que as cientistas citaram no artigo.
O Yoga - como um professor sábio e generoso - pode nos ensinar a cuidar das nossas saúdes (física, mental, emocional e espiritual), assim como cuidamos de uma frágil planta que sempre clama pela vida.
Namaste!
Referências:
- KINSER et al. How Might Yoga Help Depression? A neurobiological perspective. EXPLORE. March/April 2012. Vol. 8. N.2.
- PRATHIKANTI et al.Treating major depression with yoga: A prospective, randomized, controlled pilot trial. PLoS ONE, March 2017, Vol.12(3)