Nossa sociedade ocidental, ao longo do século XX, e de nosso século presente colocou o espetáculo como um dos mecanismos mais vigorosos dos modos de sociabilidade entendidos como modernos. Muitos de nós, ao ir em parques, cinemas, restaurantes e tantos outros espaços, nos preocupamos com as conhecidas selfies que serão replicadas em nossas mídias sociais. Não raro, as imagens capturadas em nossos computadores de bordo revelam lugares agradáveis, bonitos e como estamos contentes em podermos deleitarmos de momentos de alegria. Essas vivências contemporâneas não devem ser percebidas como negativas em si, uma vez que, em muitos casos, ela revela momentos genuínos. As experiências se tornam negativas no momento que são direcionadas para mostrar o consumo conspícuo e como nos comportamos na luta simbólica de classes, por meio de vivências que nos creditam um capital simbólico que outros grupos não tem acesso. A regra que podemos aplicar para as experiências sociais, que não pertencem ao universo yogi caem como uma luva para o yoga praticado na contemporaneidade. Ao observamos as mídias sociais de praticantes encontramos uma série de imagens que replicam nossas vivências. São imagens deslumbrantes de poses yoguistas com corpos flexíveis e atléticos, que em muitos casos, são patrocinados por marcas esportivas, desprovidas de um sentido que nos levem a compreensão da prática milenar indiana onde impera o narcisismo corpóreo; mas, por outro lado, é possível se deparar com imagens, sites, textos que se preocupam em apresentar o yoga como um sistema holístico indiano que vai além daquilo que permeia nossas retinas.
Para compreender como este processo se tornou presente em nossas sociedades precisamos entender como o yoga moderno, atravessou oceanos, chegou a lugares remotos e criou duas grandes raízes díspares: dos que modernamente nominamos yogin: praticantes que percebem a prática indiana como como instrumento de integração com a totalidade e de yoguistas praticantes preocupados com poses e não com uma disciplina espiritual de realização de Si Mesmo. Cabe ressaltar que os yoguistas modernos são heranças de indianos, conhecidos como show men , que em meados dos dois últimos séculos se exibiam suas poses para europeus com objetos, em muitos casos, de enriquecimento e status social. As grandes expedições de ocidentais, em especial de ingleses no século XIX, levou consigo entusiastas na área da ciência que se preocupavam provar e compreender as benesses prometidas por este sistema holístico indiano de modo empírico. Essa busca para muitos pesquisadores e entusiastas do yoga produziu um abalo sísmico em nossa pedra angular de pensamento racional: o paradigma cartesiano que separa corpo e mente.
Mostrou para nós ocidentais que o modelo yoga indiano poderia trazer grandes vantagens para a ciência nos tratamentos de diversas mazelas corporais e mentais. Este intercurso cultural, por meio de um processo dialético, proporcionou diversas mudanças para ocidentais e indianos que enriqueceram a cultura yogi. Mestres do yoga que, mesmo com sistemas bastantes evoluídos como a medicina ayurvedica, tiveram a sagacidade de aprender com a medicina e a ginástica ocidental e evoluir sua pratica milenar, inclusive adicionando novas posturas que passavam pelo crivo da ciência ocidental. Para nós, este intercâmbio entre culturas proporcionou ganhos a abertura de novos campos epistemológicos; expansão do yoga para outros continentes e incorporação do público feminino no yoga.
Entretanto, cabe ressaltar que o espraiamento do yoga apontou para duas veredas que coexistem em nossos dias. Os yogin que percebem a pratica indiana como instrumento que integra o universo tangível e sutil de seus adeptos; os yoguistas, cooptados pela sociedade do espetáculo, que por meio divulgação excessiva de poses em revistas, sites e mídias sociais criou um nicho de mercado arrivista que enriquece supostos gurus como Bikram Choudhury, marcas esportivas, cursos de formação caríssimos que em sua maioria não dura um mês. Essa customização da arte indiana costuma prometer ganhos estéticos como o delineamento do corpo, muitos dos quais com clara conotação sexual, tem provocado graves lesões, muitas das quais gravíssimas. São necessárias adaptações para que as dádivas do subcontinente asiático cheguem para diversas pessoas com os mais variados tipos de corpos, muitos dos quais com limitações por obesidade, acidentes vasculares, entre outros precisamos manter rituais sagrados do yoga moderno. Muitos yogis iniciam seus sadhanas, ou aulas, com sessões de respiração, conhecidas como pranayamas. A palavra pranayama vem do vocábulo em sânscrito constituído por duas palavras: prana energia e yama controle.
Para propósitos pedagógicos podemos explicar prana como oxigênio. Ao iniciar o pranayama e controlar (yama) e direcionar a entrada e circulação deste elemento químico em nosso corpo, responsável pela maior parte da vida como conhecemos, deve-se ir além da realização de um processo que ocorre naturalmente: a inspiração. Pesquisas nas áreas da ciência da saúde apontam que, se bem direcionadas, os pranayamas contribuem no controle do stress e ansiedade; aumento na produção da glândula pineal produz melatonina, um hormônio derivado da serotonina que modula os padrões de sono nos ciclos circadianos e sazonais. Neste sentido, as respirações no yoga não são executadas de modo involuntário, pelo contrário, elas são direcionadas de acordo com os propósitos que o sadhana exige e as necessidade de seus praticantes. Para que os pranayamas alcancem seus propósitos ele precisa estar em sintonia com outros dois aliados: a mente e o corpo. A respiração se torna decisiva para produzir uma atenção na mente para a ação que se pretende realizar em uma postura ou em um estado meditativo mais contemplativo. A concentração mental em uma ação contribui para que pensamentos obsessivos e repetitivos se tornem pouco constantes. Em uma analogia entre yoga e iceberg podemos dizer que os pranayamas e a mente são elementos invisíveis dessa densa massa de gelo a deriva, a ponta, parte visível que impregna lentes e retinas, seria o corpo, os outros dois elementos que agem no ponto cego da experiência visual são os condutores do corpo.
Ao se integrar a respiração e a mente, o corpo no yoga atua em um patamar dessemelhante das ginásticas corporais. Um yogin em seus sadhanas pode adquirir elasticidade e potência muscular. Entretanto, esses ganhos podem ser adquiridos em diversas práticas esportivas. Um jogador de vôlei, um bailarino, um boxeador por exemplo, para realizar suas atividades precisa dispor de um corpo, da mente e da respiração. Entretanto, devemos ressaltar que para um jogador de vôlei sacar, um boxeador quando um salta um jab, um bailarino em sua pirueta não precisam estar em sintonia da tríade yogin, pois mesmo com a mente em outro lugar eles conseguem, em muitos casos, cumprir com maestria suas funções.
Um yoguista, assim como diversos desportistas, consegue realizar poses interessantes mesmo que sua postura se encontre longe da ação, ao contrário dos yogins que não conseguem realizar um ásana em sua plenitude se sua respiração, mente e corpo não estiverem alinhadas no mesmo propósito. Essa prática desenvolvida no subcontinente asiático exige que seus seguidores atenção plena no momento presente seja em uma postura avançada como pincha mayurasana ou em uma simples postura de relaxamento como a shavasana.
É importante ressaltar que seguidores do yoga, que não customizam a prática, não devem se colocar como arautos da moralidade e julgar de modo incisivo se posturas de outras pessoas são apenas corporais ou que se desdobram para universos sutis. Mesmo porque na vida existe o ponto de saída e de chegada. Muitos assíduos yogis tiveram primeiro contato com a prática por meio da plasticidade visual de poses do yoga e, ao longo do caminho, se depararam com um horizonte que está para além da percepção das retinas aguçadas. Para que o yoga seja preservado em sua essência deve-se ampliar espaços na ciência da saúde, por meio de pesquisas, sites especializados, mídias sociais e criar estratégias de democratização da prática, sobretudo de camadas sociais desprivilegiadas de recursos, em escolas, postos de saúde e entre outros espaços que o yoga pode e deve ocupar.
Fonte: arquivo pessoal do autor; Deividi Silva na postura shirshasana
Sobre o autor:
Nasci e passei grande parte da minha existência no município de Francisco Morato, lugar este inserido na região oeste da grande São Paulo, como uma espécie de palimpsesto onde, em um clima serrano, rural e urbano se intercruzam a ponto de se diluírem. Guardo este Território em mim como uma sirsasana, postura invertida em que o coração se encontra acima da cabeça. Nele construí uma teia de sentidos que norteiam minha vida: o entendimento que não somos seres apartados da natureza; a indignação pela gritante desigualdade social; o amor ao próximo; e a intensa vontade que todos seres sejam felizes e livres de sofrimento.
BIBLIOGRAFIA:
DESIKACHAR, T.K.V. O coração do Yoga: o desenvolvimento da prática pessoal. Tradução Greice Costa. São Paulo: Mantra, 2018.
METCALF, Barbara; METCALF, Thomas. História consisa da Índia moderna . São Paulo: EDIPRO, 2013.
PAZ, Octávio. Vislumbres da Índia. São Paulo:Mandarim, 1996.
McEVILLEY, Thomas. An Archaeology of Yoga.RES: Anthropology and Aesthetics No.1,pp.44- 77,1981.